Uma revolução em curso: da semaglutida à próxima geração
A aprovação do semaglutido (Wegovy) e da tirzepatida (Mounjaro) marcou um ponto de viragem no tratamento farmacológico da obesidade, demonstrando perdas de peso de 15-26% do peso corporal — resultados antes reservados à cirurgia bariátrica. No entanto, estes fármacos representam apenas o início de uma nova era. Dezenas de moléculas estão em desenvolvimento, com mecanismos de ação cada vez mais sofisticados, formas de administração mais cómodas e eficácias potencialmente superiores.
Este artigo apresenta os candidatos mais promissores no pipeline farmacêutico para 2026-2028, com foco nos que poderão estar disponíveis em Portugal nos próximos anos.
Survodutida (Boehringer Ingelheim): agonista duplo GLP-1/glucagão
A survodutida (BI 456906) é um agonista duplo dos recetores GLP-1 e do glucagão, desenvolvido pela Boehringer Ingelheim em parceria com a Zealand Pharma. Ao contrário da tirzepatida (que combina GIP e GLP-1), a survodutida combina GLP-1 com o recetor do glucagão, explorando o efeito termogénico e lipolítico deste último.
Resultados clínicos
- Ensaio de fase 2 (SYNCHRONIZE-1): Perda de peso média de 14,9% em 46 semanas com a dose mais elevada, em doentes com obesidade sem diabetes.
- Fase 3 em curso: O programa de ensaios de fase 3 iniciou-se em 2024, com resultados esperados para 2026-2027.
- Diferencial: A ação no recetor do glucagão pode promover maior gasto energético e melhoria do metabolismo lipídico hepático, com potencial benefício na doença hepática gordurosa não alcoólica (esteatose hepática).
Potencial para esteatose hepática: A survodutida está a ser estudada não só para a obesidade mas também para a MASH (esteatohepatite metabólica associada a disfunção), uma doença hepática frequentemente associada à obesidade que carece de tratamentos eficazes. Os resultados preliminares são promissores.
Retatrutida (Eli Lilly): o agonista triplo
A retatrutida (LY3437943) é o candidato mais ambicioso no pipeline da Eli Lilly. Trata-se do primeiro agonista triplo — atuando simultaneamente nos recetores GLP-1, GIP e glucagão — reunindo assim os mecanismos da tirzepatida e da survodutida numa única molécula.
Resultados clínicos
- Ensaio de fase 2: Publicado no New England Journal of Medicine, demonstrou perdas de peso sem precedentes: até 24,2% do peso corporal em apenas 48 semanas com a dose de 12 mg.
- Comparação: Estes resultados superam numericamente os do semaglutido (15%) e os da tirzepatida (22,5%) nos respetivos ensaios de fase 3.
- Fase 3 em curso: O programa TRIUMPH inclui vários ensaios de fase 3, com resultados esperados entre 2026 e 2027.
| Molécula | Recetores-alvo | Perda de peso máxima (ensaios) | Fase de desenvolvimento |
|---|---|---|---|
| Semaglutida (Wegovy) | GLP-1 | 15-17% | Aprovada (EMA) |
| Tirzepatida (Mounjaro) | GLP-1 + GIP | 20-26% | Aprovada (EMA para diabetes) |
| Survodutida | GLP-1 + Glucagão | ~19% (fase 2) | Fase 3 |
| Retatrutida | GLP-1 + GIP + Glucagão | ~24% (fase 2) | Fase 3 |
| Orforglipron | GLP-1 (oral) | ~15% (fase 2) | Fase 3 |
| CagriSema | GLP-1 + Amilina | ~22% (fase 2) | Fase 3 |
Orforglipron (Eli Lilly): o GLP-1 em comprimido
Um dos avanços mais aguardados é o desenvolvimento de agonistas GLP-1 orais. Atualmente, todos os GLP-1 eficazes para a obesidade são administrados por via injetável (subcutânea), o que constitui uma barreira para muitos doentes. O orforglipron (LY3502970) da Eli Lilly poderá mudar este paradigma.
O que torna o orforglipron especial?
- Molécula não peptídica: Ao contrário do semaglutido oral (Rybelsus), que é um peptídeo e requer condições especiais de absorção (jejum, pouca água), o orforglipron é uma molécula pequena não peptídica, com absorção mais simples e previsível.
- Administração: Um comprimido por dia, por via oral, sem restrições alimentares significativas.
- Custo potencialmente inferior: A produção de comprimidos é substancialmente mais barata do que a de canetas injetáveis, o que poderá refletir-se no preço ao consumidor.
Resultados clínicos
- Ensaio de fase 2: Publicado no New England Journal of Medicine, demonstrou uma perda de peso de até 14,7% em 36 semanas — comparável ao semaglutido injetável.
- Programa ATTAIN (fase 3): Em curso desde 2024, com resultados esperados em 2026. Inclui doentes com e sem diabetes tipo 2.
- Tolerabilidade: Perfil de efeitos secundários semelhante ao dos GLP-1 injetáveis, predominantemente gastrointestinal.
Impacto potencial em Portugal: Se aprovado, o orforglipron poderá democratizar o acesso ao tratamento com GLP-1 em Portugal. O formato oral elimina a barreira da injeção e o custo de produção mais baixo poderá facilitar eventuais negociações de comparticipação com o INFARMED.
CagriSema (Novo Nordisk): semaglutida + cagrilintida
A Novo Nordisk está a desenvolver o CagriSema, uma combinação fixa de semaglutida com cagrilintida (um análogo de longa ação da amilina). A amilina é uma hormona co-segregada com a insulina pelo pâncreas, que reduz o apetite e retarda o esvaziamento gástrico por um mecanismo diferente do GLP-1.
Resultados clínicos
- Ensaio de fase 2: A combinação CagriSema demonstrou uma perda de peso de aproximadamente 22% em 32 semanas, superior ao semaglutida isolado.
- Programa REDEFINE (fase 3): Em curso, com resultados iniciais relatados em 2025. Os ensaios incluem doentes com obesidade e com diabetes tipo 2.
- Administração: Uma injeção subcutânea por semana (combinação fixa numa única caneta).
Outros candidatos em desenvolvimento
Para além dos candidatos principais, diversas outras moléculas estão em fases variadas de desenvolvimento:
- Semaglutida oral de alta dose (Novo Nordisk): A Novo Nordisk está a estudar doses orais mais elevadas de semaglutida (25 mg e 50 mg) especificamente para a obesidade, no programa OASIS. Os resultados de fase 3 indicam perdas de peso comparáveis à versão injetável.
- Pemvidutida (Altimmune): Agonista duplo GLP-1/glucagão em desenvolvimento para obesidade e MASH.
- Bimagrumab (Versanis/Eli Lilly): Anticorpo monoclonal que bloqueia os recetores da activina tipo II, promovendo o ganho de massa muscular durante a perda de peso. Em desenvolvimento como terapêutica complementar aos GLP-1, para resolver o problema da perda de massa magra.
- Amicetina (Amgen): MariTide (maridebart cafraglutide), um anticorpo conjugado que combina ação anti-GIP com ativação GLP-1, administrado por injeção mensal.
Quando chegarão a Portugal?
A disponibilidade em Portugal depende de dois processos sequenciais: a aprovação pela EMA (Agência Europeia de Medicamentos) e a autorização de introdução no mercado pelo INFARMED, incluindo a eventual negociação de comparticipação.
| Molécula | Aprovação EMA (estimativa) | Disponível em Portugal (estimativa) |
|---|---|---|
| Orforglipron (comprimido) | 2027 | 2027-2028 |
| CagriSema | 2026-2027 | 2027-2028 |
| Semaglutida oral alta dose | 2026-2027 | 2027-2028 |
| Retatrutida | 2028 | 2028-2029 |
| Survodutida | 2027-2028 | 2028-2029 |
Nota: As estimativas de disponibilidade são baseadas nos calendários de ensaios clínicos e nos tempos médios de aprovação pela EMA e pelo INFARMED. Podem sofrer alterações significativas consoante os resultados dos ensaios e os processos regulamentares. Nenhum destes candidatos está ainda aprovado para uso clínico em Portugal à data de publicação deste artigo.
O que significam estes avanços para os doentes portugueses?
A evolução do pipeline farmacêutico para a obesidade representa motivos de otimismo:
- Maior eficácia: Os agonistas triplos como a retatrutida poderão atingir perdas de peso de 25-30%, aproximando-se dos resultados da cirurgia bariátrica sem necessidade de intervenção cirúrgica.
- Formas orais: Os comprimidos como o orforglipron eliminarão a barreira da injeção, tornando o tratamento mais acessível e aceitável para muitos doentes.
- Preços mais acessíveis: A competição crescente e os formatos orais deverão exercer pressão sobre os preços, potencialmente facilitando a comparticipação pelo SNS.
- Tratamentos personalizados: A diversidade de mecanismos de ação permitirá ao médico escolher o fármaco mais adequado ao perfil de cada doente.
- Preservação muscular: Moléculas como o bimagrumab poderão resolver o problema da perda de massa magra, um dos principais efeitos adversos dos tratamentos atuais.
Perguntas frequentes
Quando estará disponível um comprimido GLP-1 para emagrecer em Portugal?
O orforglipron (Eli Lilly) é o candidato mais avançado, com resultados de fase 3 esperados em 2026. Se aprovado pela EMA, poderá estar disponível em Portugal entre 2027 e 2028. A semaglutida oral em dose alta (Novo Nordisk) poderá seguir um calendário semelhante.
O que é a retatrutida e qual a sua eficácia?
A retatrutida é um agonista triplo (GLP-1, GIP e glucagão) da Eli Lilly. Nos ensaios de fase 2, demonstrou perdas de peso até 24% em 48 semanas. Os ensaios de fase 3 estão em curso, com resultados esperados entre 2026 e 2027.
Os novos tratamentos serão mais baratos?
É provável que os comprimidos sejam mais baratos de produzir, e a competição entre fabricantes deverá pressionar os preços para baixo. No entanto, o preço final em Portugal dependerá das negociações com o INFARMED e de eventuais decisões de comparticipação pelo SNS.