Atualizado em abril de 2026

GLP-1 e Risco de Cancro

Dados de segurança a longo prazo, estudos epidemiológicos, cancro colorretal, da mama, do pâncreas e da tiróide. Posição da EMA e INFARMED.

Introdução: porque é que se fala de cancro e GLP-1

A segurança oncológica dos agonistas do recetor GLP-1 — como o Ozempic, o Wegovy e o Mounjaro — é uma das questões mais investigadas na farmacologia moderna. Com milhões de utilizadores em todo o mundo e uma utilização crescente tanto na diabetes como na obesidade, a questão de saber se estes medicamentos influenciam o risco de cancro é clinicamente relevante e amplamente debatida.

Este artigo analisa sistematicamente a evidência disponível sobre a relação entre GLP-1 e os diferentes tipos de cancro, distinguindo entre dados pré-clínicos (em animais), dados de ensaios clínicos e dados epidemiológicos de farmacovigilância.

O contexto: obesidade e risco oncológico

Antes de analisar o efeito específico dos GLP-1, é fundamental compreender que a obesidade constitui, por si só, um fator de risco estabelecido para múltiplos tipos de cancro. A Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC) associou o excesso de peso e a obesidade a pelo menos 13 tipos de cancro, incluindo cancro colorretal, da mama (pós-menopausa), do endométrio, do esófago, do fígado, do pâncreas e do rim.

Esta relação é mediada por múltiplos mecanismos biológicos: inflamação crónica, resistência à insulina e hiperinsulinemia, alterações nos níveis de hormonas sexuais, e desregulação de adipocinas. A perda de peso sustentada está associada a uma redução do risco de vários destes cancros.

Implicação clínica: Ao avaliar o impacto dos GLP-1 no risco oncológico, é necessário considerar o efeito benéfico da perda de peso que proporcionam, que pode, por si só, reduzir o risco de cancros associados à obesidade. Este efeito confundidor torna a análise mais complexa.

Cancro do pâncreas e GLP-1

O pâncreas é o órgão onde se expressa mais intensamente o recetor GLP-1, tornando a questão do risco pancreático particularmente relevante. A preocupação divide-se em dois aspetos: a pancreatite (inflamação do pâncreas) e o cancro do pâncreas propriamente dito.

Dados pré-clínicos

Estudos em roedores com exposição prolongada a doses elevadas de agonistas GLP-1 identificaram alterações no tecido pancreático exócrino, incluindo hiperplasia ductal e metaplasia acinar-ductal. Alguns investigadores levantaram a hipótese de que estas alterações poderiam constituir lesões pré-neoplásicas.

Evidência em humanos

Precaução: Apesar dos dados tranquilizadores, os agonistas GLP-1 devem ser utilizados com precaução em doentes com antecedentes de pancreatite. Os sintomas de pancreatite aguda (dor abdominal intensa, persistente, irradiando para as costas) devem motivar a suspensão imediata do tratamento e avaliação médica urgente.

Cancro colorretal e GLP-1

O cancro colorretal é o terceiro cancro mais frequente em Portugal e um dos cancros mais fortemente associados à obesidade. A relação entre GLP-1 e cancro colorretal tem sido analisada sob duas perspetivas: o risco potencial e o eventual efeito protetor.

Dados de segurança

Possível efeito protetor

Dados observacionais recentes sugerem que a utilização de agonistas GLP-1 pode estar associada a uma redução do risco de cancro colorretal. Os mecanismos propostos incluem a perda de peso sustentada (que reduz a inflamação crónica e a hiperinsulinemia), a melhoria do perfil metabólico e possíveis efeitos anti-inflamatórios diretos a nível intestinal. No entanto, estes dados são observacionais e requerem confirmação em estudos prospetivos.

Cancro da mama e GLP-1

O cancro da mama é o cancro mais frequente nas mulheres em Portugal. A obesidade pós-menopausa é um fator de risco bem estabelecido, mediado pelo aumento dos níveis de estrogénios produzidos pelo tecido adiposo.

Cancro medular da tiróide

O carcinoma medular da tiróide é o tipo de cancro mais diretamente associado aos agonistas GLP-1 nos estudos pré-clínicos, embora os dados em humanos sejam tranquilizadores. Este tema é analisado em profundidade no nosso artigo dedicado sobre GLP-1 e tiróide.

Em resumo: os tumores das células C da tiróide observados em roedores resultam de uma suscetibilidade específica da espécie (elevada expressão de recetores GLP-1 nas células C dos ratos) que não se verifica em humanos. Mais de 15 anos de dados de farmacovigilância não demonstraram aumento do risco em humanos, mas a contraindicação formal em doentes com MEN2 ou antecedentes de carcinoma medular permanece.

Outros tipos de cancro: panorama geral

Tipo de cancro Sinal em animais Dados em humanos Posição EMA
Medular da tiróide Sim (roedores) Sem aumento demonstrado Contraindicação MEN2
Pâncreas Alterações ductais Sem aumento demonstrado Monitorização contínua
Colorretal Sem sinal Possível efeito protetor Sem preocupação
Mama Sem sinal Sem aumento demonstrado Sem preocupação
Fígado Sem sinal Possível efeito protetor (via NAFLD) Sem preocupação
Rim Sem sinal Sem aumento demonstrado Sem preocupação

Posição oficial da EMA e do INFARMED

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) realizou múltiplas revisões de segurança oncológica dos agonistas GLP-1, tanto no âmbito das autorizações de introdução no mercado como nas avaliações periódicas de segurança. As principais conclusões são:

  1. O balanço benefício-risco dos agonistas GLP-1 permanece claramente favorável para todas as indicações aprovadas (diabetes tipo 2 e obesidade)
  2. Não existe evidência robusta de aumento do risco global de cancro associado à utilização de GLP-1 em humanos
  3. A contraindicação em doentes com MEN2 ou antecedentes de carcinoma medular da tiróide é mantida como medida de precaução
  4. A monitorização de segurança oncológica continua através dos relatórios periódicos de segurança (PSUR) e dos sistemas de farmacovigilância (EudraVigilance)
  5. Os doentes e profissionais de saúde devem reportar qualquer suspeita de reação adversa ao INFARMED ou ao sistema nacional de farmacovigilância

A perda de peso como fator protetor

Um aspeto frequentemente subestimado na avaliação do risco oncológico dos GLP-1 é o benefício potencial da perda de peso que proporcionam. A evidência epidemiológica é robusta:

Recomendações práticas para doentes

Perguntas frequentes

Os GLP-1 aumentam o risco de cancro?

Os dados disponíveis de grandes ensaios clínicos e estudos epidemiológicos não demonstraram um aumento do risco global de cancro em utilizadores de GLP-1. A EMA considera o perfil de segurança oncológica favorável. A única contraindicação formal relacionada com cancro é para o carcinoma medular da tiróide e a síndrome MEN2.

O Ozempic pode causar cancro do pâncreas?

Não existe evidência robusta de que o Ozempic ou outros agonistas GLP-1 aumentem o risco de cancro do pâncreas em humanos. Os estudos pré-clínicos em roedores levantaram sinais que não foram confirmados nos ensaios clínicos. A EMA realizou revisões específicas e não confirmou esta associação.

Posso tomar GLP-1 se tiver antecedentes de cancro?

A decisão deve ser tomada caso a caso pelo médico, ponderando o benefício-risco individual. A contraindicação formal aplica-se apenas ao carcinoma medular da tiróide e à MEN2. Para outros tipos de cancro, muitos oncologistas consideram que os GLP-1 podem ser utilizados com segurança, particularmente em doentes com obesidade e risco cardiometabólico elevado.

Os GLP-1 podem proteger contra certos tipos de cancro?

Estudos observacionais sugerem uma possível redução do risco de alguns cancros (colorretal, hepático) em utilizadores de GLP-1, possivelmente mediada pela perda de peso e melhoria metabólica. Contudo, estes dados são preliminares e não permitem concluir que os GLP-1 têm efeito protetor direto.