Atualizado em abril de 2026

Obesidade em Portugal:
Números e Tratamentos

Estatísticas atualizadas, critérios da DGS para tratamento, percurso do paciente no SNS e quando considerar medicação GLP-1.

A obesidade em Portugal: um problema de saúde pública

Portugal enfrenta uma epidemia silenciosa de excesso de peso e obesidade. Segundo os dados mais recentes do Inquérito Nacional de Saúde (INS) do Instituto Nacional de Estatística (INE) e da Direção-Geral da Saúde (DGS), mais de metade da população adulta portuguesa vive com excesso de peso, e a tendência tem sido de agravamento ao longo das últimas décadas.

A obesidade é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença crónica, progressiva e recidivante. Em Portugal, está associada a um elevado custo para o Serviço Nacional de Saúde e a uma redução significativa da qualidade de vida e da esperança média de vida dos indivíduos afetados.

Números da obesidade em Portugal

Os seguintes dados baseiam-se nos últimos relatórios do INE, da DGS e do programa nacional para a promoção da alimentação saudável:

Indicador Valor Fonte
Prevalência de excesso de peso (adultos) Mais de 53% INS / INE
Prevalência de obesidade (adultos, IMC ≥ 30) Cerca de 17% INS / INE
Obesidade infantil (6-8 anos) Cerca de 12% COSI Portugal / OMS
Custo estimado para o SNS Mais de 1,2 mil milhões de euros/ano DGS / estimativas publicadas
Mortes atribuíveis à obesidade Cerca de 5.000/ano OMS Europa / estimativas

Contexto europeu: Portugal situa-se entre os países europeus com maior prevalência de excesso de peso, a par da Espanha, Grécia e Reino Unido. As regiões do Alentejo e dos Açores apresentam, historicamente, taxas de obesidade superiores à média nacional.

Comorbilidades associadas

A obesidade não é apenas uma questão de peso. É um fator de risco major para diversas doenças crónicas:

Quando considerar medicação para a obesidade

A medicação anti-obesidade não é a primeira linha de tratamento. Segundo as orientações da DGS e da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), o percurso terapêutico segue uma abordagem escalonada:

Critérios para iniciar medicação

De acordo com as guidelines europeias e as orientações nacionais, a farmacoterapia para a obesidade é geralmente considerada quando:

  1. IMC ≥ 30 kg/m² (obesidade), após falha de intervenção no estilo de vida durante pelo menos 3 a 6 meses
  2. IMC ≥ 27 kg/m² (excesso de peso) com pelo menos uma comorbilidade associada (diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia, apneia do sono)
  3. A decisão é individualizada pelo médico, tendo em conta o quadro clínico global, as expectativas do doente e os potenciais riscos e benefícios

Importante: A medicação deve ser sempre complementar a modificações do estilo de vida (alimentação equilibrada e exercício físico), nunca um substituto. A decisão de iniciar farmacoterapia compete exclusivamente ao médico.

Percurso do paciente no SNS

O Serviço Nacional de Saúde português oferece acompanhamento para a obesidade, embora com limitações importantes no acesso e nos tempos de espera. O percurso habitual é o seguinte:

1. Cuidados de saúde primários

O primeiro passo é a consulta com o médico de família no centro de saúde ou unidade de saúde familiar (USF). O médico avaliará o IMC, o perímetro abdominal, as análises clínicas e as comorbilidades. Poderá iniciar um plano de modificação do estilo de vida e referenciar para consulta de nutrição.

2. Consulta de nutrição no SNS

Muitas unidades de cuidados de saúde primários dispõem de nutricionistas integrados na equipa. A consulta de nutrição no SNS é gratuita (taxa moderadora normal) e permite um acompanhamento regular, com plano alimentar individualizado.

3. Referenciação hospitalar

Para casos de obesidade grave (IMC ≥ 35 com comorbilidades, ou IMC ≥ 40), o médico de família pode referenciar para uma consulta hospitalar de obesidade. Estas consultas multidisciplinares — com endocrinologista, nutricionista, psicólogo e, por vezes, cirurgião — existem nos principais hospitais centrais e universitários do país.

4. Cirurgia bariátrica

A cirurgia bariátrica é considerada para doentes com IMC ≥ 40, ou IMC ≥ 35 com comorbilidades graves, após falha do tratamento conservador. Em Portugal, a cirurgia bariátrica é realizada no SNS em centros de referência, mas os tempos de espera podem ser longos (12 a 24 meses ou mais, dependendo da região).

Medicamentos disponíveis em Portugal para a obesidade

Atualmente, os seguintes medicamentos estão autorizados pelo INFARMED para o tratamento da obesidade ou com utilização relevante neste contexto:

Medicamento Princípio ativo Indicação Comparticipado SNS
Wegovy Semaglutido 2,4 mg Obesidade (IMC ≥ 30 ou ≥ 27 com comorbilidade) Não
Ozempic (off-label) Semaglutido 0,5-1 mg Diabetes tipo 2 (uso off-label para peso) Sim (diabetes T2)
Mounjaro Tirzepatida Diabetes tipo 2 (uso off-label para peso) Sim (diabetes T2)
Saxenda Liraglutida 3,0 mg Obesidade Não
Mysimba Naltrexona/bupropiom Obesidade Não

Nota sobre comparticipação: Em novembro de 2025, foi aprovado em Portugal um modelo de cuidados integrados para a obesidade. Contudo, à data de abril de 2026, nenhum medicamento específico para a obesidade é comparticipado pelo SNS. O INFARMED continua a avaliar a possível inclusão de novos fármacos no regime de comparticipação. Para informação atualizada, consulte o nosso artigo sobre preços.

Agonistas do recetor GLP-1: a nova fronteira

Os agonistas do recetor GLP-1 representam a classe farmacológica com maior impacto no tratamento da obesidade nos últimos anos. Os ensaios clínicos demonstraram perdas de peso médias de 15 a 22% do peso corporal com semaglutido 2,4 mg (Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro), resultados sem precedente na farmacoterapia da obesidade.

Para uma comparação detalhada entre os diferentes medicamentos GLP-1 disponíveis em Portugal, incluindo preços e eficácia, consulte o nosso artigo dedicado.

Para quem são indicados?

Os medicamentos GLP-1 são indicados para adultos com obesidade que não responderam adequadamente às intervenções no estilo de vida. Não são indicados para perda de peso puramente estética nem para excesso de peso ligeiro sem comorbilidades. A avaliação médica é imprescindível, como explicamos no nosso guia sobre como obter receita para GLP-1.

O papel da modificação do estilo de vida

Independentemente da utilização de medicação, a modificação do estilo de vida continua a ser o pilar fundamental do tratamento da obesidade. As orientações da DGS e da SPEO recomendam:

Perguntas frequentes

Qual é a taxa de obesidade em Portugal?

Segundo o Inquérito Nacional de Saúde, cerca de 17% da população adulta portuguesa tem obesidade (IMC igual ou superior a 30) e mais de 53% tem excesso de peso (IMC igual ou superior a 25). A prevalência tem vindo a aumentar nas últimas décadas.

O SNS trata a obesidade gratuitamente?

O acompanhamento da obesidade no SNS (consultas médicas, nutrição, psicologia) é acessível, mas a medicação para obesidade como Wegovy e Saxenda não é comparticipada pelo Estado. Apenas os medicamentos GLP-1 prescritos para diabetes tipo 2 beneficiam de comparticipação.

A partir de que IMC posso tomar medicação para emagrecer?

Geralmente, a medicação anti-obesidade é indicada para adultos com IMC igual ou superior a 30, ou IMC igual ou superior a 27 com pelo menos uma comorbilidade. A decisão é sempre do médico, que avalia o quadro clínico global.